quinta-feira, agosto 25, 2016

Quadro

O máximo que consigo

É usar camisa de manga curta

Botões resistindo pressão

A barriga, na foto não aparece, 

Escolho o foco

self do feijão

 

No banco, nada,

figuras na foto borrada

Filtros do insta no iphone

de barro para água

Pipoca-criança com fome

 

Em casa às vezes falta

Às vezes sobra

Alegrias também.

As crias a gente cria, nenem

Crianças crescem

Belém, Belém

 

Prestações de tudo

Risos, lamentos 

Parcelas de tempo

Eu falo e muto

Compro na web

Vivendo fajuto.


Árvores no quintal balançam 

O vento leva tudo pra fora

Ardósias, chapiscos, lembranças

Macacos minúsculos me informam

Que a vida acontece aqui dentro.

sexta-feira, junho 10, 2016

Olho por olho

Nasci de olho fechado, tio,
Pelado, vivo de tudo, descansado
Um marco zero, às pampa, nos peito,
Nas anca
Esperando ser acordado

Um dia abri os olhos e vi
Não entendi, que cresci
Mas em volta nada, 
O mundo diminuía, eu sabia
Que um dia, essa terra ficaria apertada
Tanta gente, ateu e crente, 
Preto e branco, rico e pobre
Mas só pros nobre, pai,
A vida é diferente?

Eu fortalecia, de quebrada eu ia
De bike nas praça, 
ia achando graça em tudo que via
As minas colava, eu ria
Bola na rua, as pipa
Até chegar as polícia,
As dura, as noite na delegacia.

Eu com os olhos já
bem abertos, Sabia
Que na vida de correria 
era rei quem sabia andar
Inspira, expira, solta o ar
Chinelo, sapatinho
Igual Martinho, devagarinho... devagar 

De olho aberto irmão, difícil ver
fechando e mente então
Pode saber
Perde o controle, jão, pra outro ter,
Vira boneco, irmão, 
sem querer

Cresci, a mente muito mais 
que os olhos abri
Queriam um fiel virei o cão,
Prometiam o céu, os barraco
Eu vi as biqueira, as boca, os avião.
E vi as garganta aberta e os caco
Vi tanta coisa, que cegou a visão.

Vários parceiros de infância, 
todo mundo parente da violência 
Na quebrada olhos arregalados 
Tipo laranja mecânica 
Os rolé nas madrugada
Só fumaça, parceria e consciência.

Os olhos já nem abria
Era trampo, escola e livraria
Os show de rap, as batalha,
As conta todas na cola
Na maior responsa, várias correria

Era assim que fluxo corria
Num piscar de olhos, via
Mil parceiros e vários filha da puta
Para um dia de glória
A vida inteira na luta.





















 














sexta-feira, maio 20, 2016

Tríntage

Outro dia tive um sonho
Tava bem barbeado
De fato muito estranho
Com um bigode desenhado

Pincel de cerda e creme bozzano
Lâmina bic sem lubrificar
Phebo e eucalipto no banho
Cheirei rapé para arrematar.

Mocassim preto de fivela
Lustrado de cera e flanela
Meia no pé até a canela
Camisa branca e calça reta.

Fui ao banco e à lotérica
Fumei na fila um cigarro
Pisquei, sorrindo para a Érica
Caixa do banco número 4.

Pedi bença na chegada,
Na entrada me benzi,
Na saída falei licença,
Acordei e não entendi.

segunda-feira, fevereiro 15, 2016

Mármore

Você não sente nada
Nada, dente na carne, 
Ou um sopro na alma
Nada, você não sente.

Você não move, está 
Pedra, fria e lápide
Um lapso da sorte
Pulsão de morte, virá

Te acompanho, não me movo
Não me atrevo viver, triste inverno 
Confio no seu enlaço e sucumbo
Um baile sem música no inferno

Assim nosso romance
Diariamente se repete
Casa, trabalho, um lance
Festejamos o tédio, entende?









Clareou


Para Clarisse Raposo

Quando ela veio eu nada era ainda
Não éramos gente, meninos
Fome de tudo, crescemos ali
Dividindo todos os caminhos.

Crescíamos merecendo tudo, 
Merenda, oferenda, fazenda, 
Mas ganhávamos o mesmo
Um beijo e cada coisa horrenda.

Grandes, nossas faltas gritavam
Repetimos erros no espelho
Afeto, ódio e músicas jorravam
Sabíamos de cor amar de joelhos

Marcamos uns aos outros
Olha nela o que eu fiz brotar!
Dentro pode ver as marcas
Um paradoxo multifamiliar

Desenhei para ela uma canção
éramos feito do mesmo verso
Entendia cada tijolo da construção 
Essa casa nova: que ser complexo.

Clareou: escolhi só viver feliz
Esqueci tudo em volta
Crescemos tortos, copia e matriz
Estamos aqui: o que mais importa?

Feliz aniversário, lac!

terça-feira, fevereiro 02, 2016

Inocente

Acorda cedo, madrugadinha
O cão late chorando ser gente
E gente o que faz?
A essa hora só sono, rapaz!

De manhã cedo nada termina
O pombo continua olhando de cima
cada coisa besta se assanha
Até a criança doente se anima

O pombo queira ser um cão
O cão, gente. 
E a criança coitada, crente
Que nada importante se acaba.



quinta-feira, dezembro 03, 2015

Álbum

Todas as famílias
Domingos e feiras, 
feridos e finados
Bêbados, drogados, 
Alegres abraços.

Todas as famílias
Amores e ódios
Ciúmes, Bebês, 
Comes e bebes 
Arrotam desgostos

Todas as famílias
Doces, viagens,
Virgens rezando,
Santos de casa.
Aparecem nas fotos.

Todas as famílias
Orgulho e vergonha
Gametas, vigílias
Traços e nomes
Aproximam quadrilhas

A família toda!
Dinheiro, posses
Poses e pesos
Rios de mágoa
Todos adoecem e morrem.

35

Eu não tenho trinta e cinco
Não tenho setenta
Não tenho, sinto,
Tudo no tempo é permanência 

O que eu tenho não há
Régua para medir
Nem palavra para falar
Restei aqui, sobrevivi

O meu tempo é o que vi
Fotos, fetos e afetos
Cidade e não idade
História!

Foi só isso que pari.

terça-feira, dezembro 16, 2014

A carne o corpo e o tempo

O que corta a carne não é a lâmina

Nem aguda nem grave

O que corta a carne é a mão


O que dilacera o corpo?

O impacto do outro

Ou a falta de chão


O que renasce um, eu sei,

Se não for o tempo

Será carvão


Na carne, no corpo,

Renasce um outro

O tempo que sabe

Eu não

quarta-feira, março 31, 2010

Lhama

No inicio de tudo, quando ainda nem sonhávamos com o que iríamos ser nem com o que não seríamos, preenchíamos nosso tempo com sonhos e histórias sobre vestibulares seriados, bandas de garagem e outras fora delas, e toda sorte de amenidades que moram ali nos dezesseis ou dezessete anos.

Da escola, absorvíamos pouco, mais pela repetição e pela insistência ali, 8 horas de dedicação para depois merecer uma cerveja num bar duvidoso, ou umas voltas de Fiat Uno verde ao som de um grunge qualquer. Grunge qualquer não, aquele fita no carro fora gravada por um grande amigo.

Eu e Hurt nos conhecemos no segundo ano do ensino médio, durante uma viagem de ônibus para uma etapa de um vestibular. Dividimos um toca CD's suspeitíssimo. Falar sobre isso é no mínimo arriscado, pois ele, mais que qualquer outra pessoa memoriada do mundo, coleciona tudo, inculsive memórias, compulsivamente. Mas vou me arriscar aqui inventando as minhas e com a minha medida.

Hurt tornou-se uma espécie de irmão mais novo que observava atento as articulações de um outro carinha mais velho, com algumas histórias impressionantes para contar. Ao fabular para ele alguma história, normalmente sobre novas conquistas ou outras aventuras juvenis, via que Hurt apreendia aquilo, vibrava com um pescador e seu novo peixe grande.

Entretanto, ele não era só um espectador atento, era comigo autor daquela história feita sob encomenda para nós nos divertimos e reinventarmos nosso dias. Éramos uma dupla.

Hurt foi para a faculdade de comunicação, e eu que quisera ser médico um dia, me juntei a ele dois ou três anos depois na mesma faculdade e no mesmo curso. Típico evento, já que ele sempre foi afeito a mais constâncias e paciências que eu. Falei medicina e fiz comunicação. Se falasse comunicação, agora deveria estar em algum bloco cirúrgico ou enfiado num consultório branco. Enfim, nesse período da universidade forjamos uma reedição daquele tempo só que aos vinte e poucos anos, mas aquele sistema de antes, do irmão mais novo, ainda perdurava.

Eu sinceramente, com toda prepotência que podia ter e tinha, achava que me arriscava mais, que me divertia mais, namorava mais e que vivia mais. Não sei ao certo se era isso que eu fazia naquele tempo, mas as atribulações as que me envolvia me sinalizavam que eu vivia. Meu corpo me dava dicas disso aos poucos e eu me preocupava com Hurt pelo fato de ele não se perder no arriscatudo.

O que quero dizer depois disso tudo dito, é que hoje temos quase 30, uma calva parecida e mantemos algumas piadas internas antigas. Eu estou no mesmo lugar. Hurt não está. Hoje sou o irmão mais novo. O tempo não controla.

terça-feira, dezembro 01, 2009

29

Indagaram-me de pronto
Susto:
Algo indiscreto
te comove?

Sem pressa rebati
altivo
“No more”
Daqui dos meus
29

segunda-feira, outubro 05, 2009

Se fosse por mim, pra ser feliz, tudo seria diferente ou não seria nada.

Estou preso
nos sonhos
dos outros

Acorda-te
E nada
Não há acordo

E ainda não sou
O que sempre
Imaginei.

Despertenço-me
Mais e mais

Eu e meu espelho
Que não me pertencem
jamais

sexta-feira, outubro 02, 2009

Perna Curta

Bosta,
Felicidade
É só
aposta

terça-feira, setembro 22, 2009

Pequeno entendimento

Nada perdura
Quando assustar
Virá sepultura

Pequeno adiamento

tudo circula
quando voltar
tomo postura

quarta-feira, julho 08, 2009

Despedaço-me

O tempo não foi tão cruel e definitivo a ponto de proibir as idas e vindas dos pensamentos que visitavam com freqüência aquele tempo tão longe de se alcançar.

As memórias sempre se encontravam agasalhadas, em uma gaveta, em alguma parte do corpo que quando a sensibilidade batia à porta, fazia-se fácil viajar até ali e desdobrar algumas experiências empoeiradas e cheias de vida.

Daqui de onde estou, no tempo velocista de todo dia, da dinâmica instaurada pela vida adulta, tenho apenas alguns segundos para sentir saudades. Parado na calçada esperando um táxi, ou ali, empacado no trânsito nosso de cada dia. Nesses momentos vou acolá e resgato um daqueles pensamentos cheirando a setelagoas, esvazio um pouco a cabeça e assim inflo o peito, numa dor gasosa, etérea, grave que costumeiramente anda pareada a um marejo doido nos olhos. Um verdadeiro balão que se esvazia em cima e se enche abaixo tendendo ao estouro anunciado.

Sorte que eu tenho pouco tempo para essas coisas. Preocupo-me de fato com os outros que habitavam esse passado. Será que conseguem sobreviver a essa falta ou pouco se importam se um dia existimos? Se um dia existimos como uma liga delinqüente ou como uma confraria de fumantes, tomadores de café, rockers oitentistas, capoeiristas, vendedores de bebidas, comedores de mexido ou jogadores de vôlei.

Certamente eles já choraram de saudade mais do que eu sucumbi a tal ato. Sou ainda capaz de apostar que pegaram o telefone, procuraram alguns nomes na lista e telefonaram uns aos outros para saber se ainda magrelavam ou se a voz ainda estava rouca como quando ainda adolesciam.

Só de pensar sinto cheiro de comida. Os escândalos da pimentinha, os feijões noturnos de Licota, cachorros-quentes da Tia com chantagem de amizade e queijo por baixo, frango assado e coca-cola na volta do Regina. Acho que devo ser um dos únicos que hoje sofre com a balança. Será?

Tudo ali naquele tempo não faz nenhum sentido hoje, a não ser pelo fato de eu e dos outros sermos feitos dessas lembranças, pedaço a pedaço, e agora como sou? Esses pedaços latejam de falta em mim. Esburaquei-me desse tempo, dessas pessoas, desses amigos de quem fui subtraído pelo tempo que levou muita saudade e alguns cabelos de mim.

O que eu quero com tudo isso? Não sei, talvez eu queira ser como um polvo, guerrilhar em várias frentes, ter uma máquina de tele-transporte, ter férias por seis meses e um telefone de graça para tentar de alguma forma ajeitar essas gavetas semi-esquecidas. Esvaziar o peito de tudo ou quem sabe enchê-lo de novas idéias sobre velhas memórias. Rever alguns pedaços de mim que não sei ao certo se agora digitam números nos bancos, ensinam histórias, se vendem coisas ou se são vendidos, se moram com a mãe, fumam, casam e separam, se fazem filhos, se ainda acordam mal humorados, se ainda são bons de sinuca, se deixaram de ser sovinas, se pararam de se apaixonar por todo mundo, se conseguiram jogar fora suas tralhas ou se já se esqueceram de tudo.

Eu de minha parte sinto muito que tudo tenha que ser assim.

quinta-feira, maio 07, 2009

Inventando Letícia

Quanta falta faz Letícia.

Já não sinto mais seu cheiro impregnando meus cabelos, fazendo-me reviver todo mistério de toda noite. Dela, diferente de outrora, só tenho notícias vagas sobre tudo que já supunha. Como farei, então, para que em novo instante ela se chegue bem perto e se ofereça em carne pura, sorrisos largos e ironias? Ela ali, perfeita, em foco, inventando as belezas para cada novo rapaz desavisado, florescendo as coisas que toca.

Letícia sempre foi perigo. Desses alarmes que sempre queremos que nos denuncie, que remonte a natureza impulsiva da juventude que já nem sei se dela pertenço. Letícia era nuvem. Sempre caminhando e assumindo formas diversas, etéreas e todas inalcançáveis. Letícia não era vento, era brisa, uma brisa quente e úmida, como se existisse uma Europa tropical. Aos borrões negros os seus olhos percorriam o mundo angariando um sem número de novos devotos. Futuros mortos de fome e de sede a quem a saudade ainda há de abater como me acomete nesse instante.

Fecho os olhos bem forte para vê-la de novo. Sei que a invento mais que metade, a real, a outra quase metade, olharia para meus olhos apertados, passaria as mãos em meu queixo, sussurraria calores em meus ouvidos, indo-se com um olhar saliente que se estende e estica enquanto ela se perde na escuridão, onde a saudade faz a curva e deslizam-se as invenções.

quarta-feira, março 04, 2009

Amigos amigos

Se a saudade fosse imensa que eu permanecesse só seria certamente o fim, e se eu não carregasse em mim um imenso cemitério de nomes e números ainda teria esperança de reviver um tempo passado, e se eu ainda lembrasse tudo o que juramos em altares hereges cobrar-te-ia, impiedoso, todo fracasso alcançado em tantas letras de músicas, bandas insurgentes em nós, livros trocados, música e poesia, que tudo resta iminente, parado no tempo, latente, ah se ainda lembrasse de tudo que eu disse incauto sobre os meandros de mim, sobre os obscuros de tudo, enrubesceria-me e arrependeria-me de ser, entregue assim, suicida, e agora, lembro de entregar-lhe tudo, todo tipo de sensação, e hoje, enquanto tenho um jazigo de sonhos, mármore frio, você ainda perambula com os meus, por aí, sem nem se dar conta de mim e do que era com você, e ainda sim levou de mim uma sede de tudo ver e guarda em vossos bolsos fundos sem visita, que não cuida, que nem porra nenhuma e que ainda gaba-se de ter a propriedade esquecendo-se de haver, portanto, a posse, passam túneis, rios de janeiros, alguns salários a mais e assim você toma altitude de gente grande, a fustigada altivez adulta, levando na bagagem cacarecos de outros, e se casa, tem filhos, leva segredo de tudo, orgulha-se em ser ilha, filha da puta! aqui, sou ilha também, mas tenho faltas e alguma saudade, sou fraco, frouxo, velho, barriga e careca, mas tenho o mesmo número e todo o tempo do mundo para sermos, como antes, amigos de mentira, e poderá, enfim, pagar o que me deve.

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Desertos

I

Uma bebida quente recompõe desertos
que no oriente se faz tão certo
de, de repente, fazer-se repleto,
um deserto coberto de gente

II

Um copo cheio de um mar Caymmi
Caminha lento, um pisar disperso.
Tempestade de areia que me tranqüilize
Fartei-me, massivo deserto.

III

A salmoura da carne
É a culpa do mar
Que é banho-maria

terça-feira, janeiro 27, 2009

Gametas

Definitivo,
Na terra em que padeço
Agora permaneço
Pai do
Que mereço

Pertenço,
Transmutado em mim mesmo,
fortuito parentesco,
Naquele que enfim,
Finda em heranças

Gametas,
Infinito-me metade
Perpétuo no tempo
Transito em outro
Que não passa do mesmo

Fraciono-me
em terceiro
Existo em outra vida
Nuclear, um paterno
Parceiro.

quinta-feira, dezembro 04, 2008

Três Boleros

Pegou-me por três boleros
Regalou-me drinks tropicais
E aqueceu-me o vão das coxas
Bafejando sujeiras nominais

Apertou-me forte a cintura
Conduziu-me riscando o salão
Por três boleros, pegou-me,
E roguei-te comunhão

Fulminou-me com seus olhares
Raptou-me a companhia
Perfumou-me o dorso, colares,
Outro drink oferecia

Sucumbi-me aos seus intentos
Assenti que partíssemos breve
Despida no quarto quinhentos
Adormeci três boleros mais leve.

quinta-feira, novembro 27, 2008

Ginástica Olímpica

Boa sorte para você
na sua ginástica olímpica,
Menina sem gravidade,

Infante com metade que tudo indica
Toda feita de amenidade

Toda sorte para você
no seu primeiro tombo,
Pequenina dos ares,

A queda guarda consigo
Amuleto da prosperidade

Muita sorte para você
na sua cama elástica,
Criança desperta,

Esticando o sono com a sua borracha
Cair no futuro é o que te resta.



Para minha querida Júlia Raposo

quinta-feira, outubro 23, 2008

Poema mentira

Poema mentira
Minuto tardio
Poema mentira
Medida esguia
Poema mentira
Pequena cidade
Poema mentira
Inteira fatia
Poema mentira
Pouca idade
Poema mentira
Cabeça vazia
Poema mentira
Poema mentira
Poema mentira
Tão repetido que é
Pura verdade

terça-feira, setembro 30, 2008

A casa do pai

Não te olho ainda com a profundidade que queria e já vejo tudo, te vejo todo. Ao meu modo, lógico, e imagino tanta coisa que queria que tu fosses e que tomara Deus não as será. Os seus traços e proporções sou eu quem as dá agora, por isso são tão óbvias, portanto não se conforme em conformá-las. Aceite-as por ora, por piedade a mim.

Tu és incluso e eu expectador atento e invasivo, querendo ao seu lado estar e cooptá-lo ao meu amor.

No seu duo, resguardado de interferências de toda sorte, cirandeio por fora em giro contrário - por erro e não por opção - acenando com os meus braços, querendo com as mãos tocar-vos dois, inventando um trio torto, escaleno, que há de seguir pra sempre com o lado que me cabe virado para trás, mas belo pelas duas arestas soberanas. Ainda sim me orgulho e me comprazo por essa harmonia estranha.

Não te tenho em mim, tampouco me conheces, mas me tens ao todo, dos pés a cabeça, sobremaneira esta, que também te espera, gera e se modifica por ti.

Pois sim, tens duas casas, uma de ventre e outra de vento. Uma em que te moras e outra que mora em ti.

terça-feira, agosto 26, 2008

A Janela do Mundo

A janela do mundo
é pintada de preto
o pintor tem na mão

a paisagem de perto
um futuro de medo
e um punhado de pão

A janela do mundo
E quebrada de vidro
Um pedra na mão

É fechada em cimento
Pra rajada de vento
É a morada do cão

A janela do mundo
A moldura de tudo
Só buraco profundo

Que me tapa a visão.

terça-feira, agosto 19, 2008

Estaca

E pensávamos que éramos todos ossos
Que sustentávamos toda carne do mundo
nos delongos de nossos caminhos

Pobres de nós, tão gravetos,
Que ao peso de uma folha ou estação
Sucumbimos à gravidade de estar ali.

Desnudos de toda companhia
Tirante o chão
Não cabemos na agonia
De ser fracasso de sustentação.

quinta-feira, junho 26, 2008

Glitch God

Meu
espírito
ueM
oitirípse
my spirit
descobriu
uma
uirbocsed
discovered
amu
coisa
something
sem querer:
asioc
:rereuq mes
unintentionally

- "Deus é Shuffle"

quarta-feira, junho 11, 2008

Circo-Circuito

Rápido, rápido,

Tudo se acerta no final

No nó do último transe

Brigam cauda e animal


Gira, risca, simula,

Sem pretexto assume o crivo

Depois de voltas em seu eixo

Te premio com um motivo

terça-feira, março 11, 2008

TIC TAC

Era uma vez uma relojoaria, que foi do avô, do pai e é do filho. O Espírito Santo ali batia cartão de ponto em um relógio 3 minutos, pontualmente, atrasado.

Ele, o Horácio, bendito fruto, reinava em seu ofício nobre de consertar relógios. Ele fazia tempo.

O correio passava entre dezessete e dezessete e meia, a quitandeira sempre na hora do almoço, entre doze e doze e cinco, todos clientes do filho do pai e neto do avô.

Horácio não usava relógio, de certo porque não precisaria, era só olhar para o lado, para cima ou para baixo, por toda a parede que lá pereciam, infindos contadores, marcando a cadência do dia. E era ele quem os dotava desse poder. Soberano, Horácio possuía as horas dos relógios.

Noite vinha, quando em casa, as horas tic-taqueavam na sua cabeça e, ele sentia-se estranho, tinha certeza do que antes desconfiava. Se em casa, sem relógios, era capaz de contar as horas dentro de si, era, muito provavelmente, ele quem as possuía e as distribuía. Fato.

Dia seguinte não abriu a loja, não consertou nada nem ninguém, mediu o tempo que gastava de casa até a loja, sem relógio, e os semáforos, sabia a vida de cada cor.Fez sair pão quentinho da padaria às quatro, e todo mundo parou de trabalhar às seis.

Sorriu e não contou pra ninguém a boa nova. Tic tac, o ônibus em cinco minutos. Tic tac a água do café em três. Tic, seis horas de sono, tac, banho em sete minutos.

Cumprimentava-se pelo seu primeiro aniversário de vinte e quatro horas contadas e agora queria abrir uma loja de despertadores.




sexta-feira, fevereiro 15, 2008

obituário de domingo

tudo era ridiculamente simples

não passavam de nós inventados

para nos sentir brilhantes ao desfazê-los

Como se perde tempo! Como somos inventivos sem motivo!

E o deleite e gastá-lo com honras sofríveis?

vale mais do que ouro?


Quisera eu saber antes que tudo era domingo.

Dormiria os papeis sob

a porta

Coçava a buraco do meu futuro

Até o tudo depois se espreguiçar


Ah se desconfiasse que no fim era só um sopro,

A prévia de tudo desfigurar

Votaria em mais troça nos dias

Aumentaria o oco por onde tudo há de acabar


Caberemos

Todos

Se

Deitarmos.


Mas, pra quê, se suas pernas diminuem ao longo do caminho?

sexta-feira, janeiro 25, 2008

MINIgiga

Quando crescer quero ser pequeno

Diferente de com quisera antes.

Agora interesso tomar veneno

Desses de ficar menor que os infantes


Esse dia, de pequeno flor,

Menorzinho do resto do mundo.

Esquecerei de ver altas-altezas e

Serei amor das coisas lá do fundo


Tadinho, pedaço pouco de gente,

Cabido em qualquer lugar que quer,

Sumindo, esvaindo, cisco volante,

Pra nascer um dia um grão,

giga - gigante!

quarta-feira, novembro 28, 2007

Mínimo

Às vezes careço de ser invisível,

Tentar um pouquinho de fingimento

Pelo menos transolhado, que seja,

Desmirar das coisas de cimento


De vez eu consigo perto de tal

com as coisas passando por dentro,

mas não sei é desaparecer, de certo,

Não sou aparentado de ventos


Chateei de andar assim mostrado,

De ser domingo na vista de tudo.

Do tamanho de ser agachado

Podia ser a medida de todo mundo


Minuscular eu até consigo

De tão miúdo periga de pisoteio,

Mas se conseguisse desfigurar...

Ah, da vida tinha nenhum receio.


quarta-feira, novembro 21, 2007

Contra-choque

As verdades andam lado-a-lado

Os que divergem são os sentidos

Um entra mudo e o outro sai calado

Como se fossem pensamentos fugidos


O bom é quando as idéias se chocam

Por tão descombinadas que são

Um entra viva e pode sair morta

Numa mera questão de opinião


E desse embate é que tudo se nasce!

Há de haver julgamento para existir apelação

Só se move o mundo se for contrário

Só se tem movimento depois da inação




quarta-feira, outubro 31, 2007

Vai me desculpando a prosa, mas é por causa da chuva

Paulo Márcio Fontes Terra, Paulinho quando criança, antes de ser pego três vezes em Janeiro, quando das águas, fugindo de casa pra pegar chuva no terreiro. A partir desse dia, sua alcunha era Truvão. Na boca dele o”Tru” demorava mais, com mais erres e us: “Trrruuu- vão”. Não sabia o futuro que ainda teria uma vozinha esgarniçada de Paulo-Paulinho, e que seu apelido não cairia tão bem num rapaz franzino e de fala encriançada.

De moço, Truvão ainda mantinha o gosto de tratar das plantas de fundo de quintal. Já fora de Pains há uns 10 anos, ele agora tratava de jardim de gente bacana na cidade. Lembrava sempre de cabeça a sua mãezinha Lira ralhando das matreirices verdes do rapazote “Paulim só sabe dar conta com pranta. Nem gente, nem menino, nem escola. É pranta”. Toda vez escutava a mãe por dentro da cachola, no trato dos jardins mais luzidos e deslocados, acompanhava um cheirinho de lenha queimada, terra trovejada, de pirueta molhada e de xingos de Lira, o que dava jeito num riso besta por dentro que teve quem passasse e se inquietasse “ê truvão, sonhando em pé?”.

Truvão se esquivava os olhos, e voltava pra terra rodiada de ardósia, de firulinha em volta, muito diferente do que viu de menino, terreiro, chuva de tardinha... e verde que nasce só pra nascer.

Aquilo encucava o moço. Como é que coisas iguais - porque planta é planta em qualquer lugar - seriam tão diferentes agora de quando chovia no terreiro batido? Encucado do mesmo jeito ficava quando chovia, e trovejava, e toda a gente se albergava em guarda-chuvas, dentro dos carros, no trânsito, nos apartamentos, desgostando da coisa mais batuta que aquele lugar sabia remedar do outro, do outro que verdejava à toa.

Pensava, “assim são os homens como as criaturas”, tal e qual sentia com as verdes companhias sentia também com as figuras dos guarda-chuvas. Sua mãe, ralhadeira que era, sem muito tino pra criança, moço ou rapaz, sabia que mesmo o menino teimando em ir chover na chuva, Truvão, gostava daquilo. De planta e de água caindo. Zanzar por ali era o que ele sabia, mexer com os pés de plantas era o que o menino gostava, mais ainda do que de doce de goiaba de domingo. Da mesma maneira, ralhar era o que fazia Lira com esmero, era o seu jeito de mostrar cuidado e atenção. O Truvãozinho, molhado, sabia também, que daquela caraça enrugada de dona, na rabeira de um xingão vinha um pano seco ou um copo de leite quente de caneca de esmalte ou os dois quando a chuva chovia por demais.

Agora, Truvão ainda anda sozinho, mas sem quintal e, às vezes, espera depois de uma garoa que aqui tem demais, alguém, desses de guarda-chuva, que vai olhar pra ele de braço arcado na cintura, enrugando o meio dos olhos, dizendo pelo menos um “ô Truvão, sai da chuva. Larga um pouco essas plantas e vem pra portaria um instante”. Mas não, não tem esse que fala as coisas olhando de brabeza e cuidado. E ninguém tem paciência pra portaria, elevador, chuva ou jardim. A gente daqui anda com os dois pés quase no ar de tanta carreira desatada.

Truvão gostava das coisas mais plantadas, que nascem de besta que são. De tarde, em dia de céu virado, olha pra cima com os olhos de Lira, pensando se poderia ele pedir pra chuva entrar, porque lá fora as coisas andam difíceis esses dias. Às vezes, no dia que a chuva toda vem, ele também chove um tiquinho. Outras vezes não, só volta pro jardim com aquele riso-brisa-besta de dentro e uma saudade que nasce de nascimento, assim, sem regar.

terça-feira, outubro 16, 2007

escrita

sublinhava os passos com o meio fio. rascunhava o dia com caminhos distintos, entrecortados por pernas bambas.

apagava os mapas se embrenhando na multidão.

borrava a vida com as chuvas no verão.

sexta-feira, setembro 21, 2007

Nadadeira Nadista

Enquanto a vida pinga

e empoça um pouco pra quem pisa,

Quer-se enxurrada

Feitas de pingo de cima


Tromba d’água fria!

Sequer enxugamos

Andamos desdenhando molhados

Até que somos lembrados


Glub glub glub

Devíamos ter pés-de-pato

segunda-feira, agosto 13, 2007

Já sei

Agora menino,

você se encolhe em feto,

as janelas em escuro pano

e torce para que caia do céu

uma chuvinhinha, pequena e fina,

de doer o meio do umbigo.

e espera não saber mais,

se noite ou dia,

que faz lá fora

a mesma toada

desde que gasta o mundo.

até tudo ficar claro




Lucas dos Anjos

segunda-feira, agosto 06, 2007

Vermelho

Há de ver o verte
Como se prenhe fosse
Como se tudo acabasse
Num vermelho sem fim

Há de tecer o vértice
Como de praxe, trouxe.
Há de tocar o espasmo
Num rubro trampolim

Há de despir de vestes
E há de passar por mim
Como se sentir na pele
Demais fosse para mim

Hei de lembrar assim



Lucas dos Anjos

quinta-feira, julho 26, 2007

didática das flores

É tudo muito rápido. Os primeiros solavancos da caída em pouco dão lugar à dança suave, conduzida por braços de vento. Cambalhotas ensimesmadas. Durante o percurso, uma faixa de sol geralmente ilumina as pequenas nervuras, ainda há pouco tão pulsantes, mesmo que na costumeira estática. É fim de tarde e em algumas copas assovios conduzem o ritmo do ocaso. Por fim, o encontro com a grama e o repouso, depois do turbilhão.
o amarelo em queda.
um pingo de vida.



nian.pissolati

quinta-feira, julho 19, 2007

Descoversa afiada

Sem verseio

converso

falsas vontades


Procuro vazar-te,

sulco,

de veleidades


nos olhos,

na crista

de teus segredos


De punhais

em punho encontro:


Um par de olhos já vazados

Um oco vento

que me sopra


"chegaste atrasado"



Lucas dos Anjos

sexta-feira, julho 13, 2007

erro.ótico

- a melhor maneira de cair é deitado


o melhor ver

está no escuro


a maior fala é a dos olhares. depois do

abraço


e o calor...

está às três da manhã, envolvido e em repouso,

tomando guarda

enquanto o sol não vem



nian.pissolati

segunda-feira, julho 02, 2007

Desmaiado

Cores idas

Coloridas

que agora

Furtam outras

menos cinzas

Em uma aquarela

duotone.




Lucas dos Anjos

quarta-feira, junho 20, 2007

de(s)

De tudo que o amor é feito

De posses sem tato

De fatos, de leito


De tudo do amor, efeito

De saciedade do peito

De poses, ilusão.


De todo do amor, defeito

De juras, precaução

De consumo, resignação


De tudo que do amor rejeito

De fins, projeção

De falência, perfeição


De matéria

De imprecisão

De que é feito?



Aceitação...




Lucas dos Anjos

terça-feira, junho 12, 2007

.

muda

mundo

mudo

(o)

mundo

mando

o medo

pra


modo-mudo

manso


letra muita em papel branco

letra pouca quando fora

dentro

em

pouco

turbilhão


nota longa para um começo

breve


melodia em tempos de construção

estruturas

(re) caídas


canto o canto

cata o canto

quanto mais,

encanto.

*nian.pissolati

sexta-feira, junho 08, 2007

Meio ano inteiro

Jogando fora:
um balde de coisas antigas.

uma mala de desutensílios empoeirados.

e uma caixinha extravagante.


Guardando:

um papel em branco.

dois lápis.

e duas ou três idéias.

*nian.pissolati

sexta-feira, maio 18, 2007

venda.

eu vendo panos quentes!

eu vendo panos quentes!

verdes e pardos!

e molhados.

eu vendo planos rentes!

planificados e retalhados.

eu vendo planos à prazo

com juras e correção.

eu vendo por anos

o cheio e o vazio

a reta e a curva.

sem desconto.

*nian.pissolati

sexta-feira, abril 13, 2007

caixa.mágica

Seria bonito
Se não fosse mentira
Dizer que todos aqueles dias
Todos aqueles sopros
E todas as risadas estivessem
Devidamente catalogados
Em ordem cronológica
Separados por anos
Meses
E sinceridades
Numa caixa vermelha fechada
(facilmente acessada quando conveniente).

Mas a chave ainda está aí.

O que torna daqui
Fábula.

*nian.pissolati

quinta-feira, março 22, 2007

Tanto Traço

Lucas dos Anjos

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

dois era um

enquanto eu caminhava você vinha e

sem pensar muito fui me acostumando a essas tantas vozes diárias

sem aperceber do vão que me causara

e como o passar das horas tinham diferentes pesos.

me olhava quase em transe.

nem cogito a possibilidade de falar das inúmeras medidas

como se disso tirasse algum proveito...

essas sempre fomos mestres em abandonar.

bem sei eu que isso tudo não passava de um jogo

e talvez por esse costume de brincarmos com o indevido

desses que te ensinei no respiro fraco e contínuo dos dias

acabamos por largar de vez nossos lugares-borboleta de antes

e com esses olhos embaçados você acompanhava cada ranço meu.

porque como sabe bem, essa maneira de lidar com o tempo a dois

na realidade de nossos dias impensáveis, apenas um esquivo,

tem lá seus riscos e não seríamos nós que mudaríamos isso.

e só quando eu cheguei bem perto

vi finalmente na sua negação o desespero inútil contra o tempo

e percebi que não poderia conceder-lhe minha mão

que mais uma vez venceu. e digo-te, com um certo asco (quem diria!)

que você começava a aceitar que dali por diante

sem deixar de sentir o sabor de lágrima me inundar a boca :

agora um era dois.


*nian.pissolati

sexta-feira, janeiro 26, 2007

Passarado

Sobre todo o verso
Que aqui assola leve
Há um sério perigo
que alegria seja breve

Encorpado e contumaz
o que resta é certeira tristeza
De saber agora mais breves
Sorrisos e outras levezas


Prudente é altear
Escalada
Cava-se antes
A queda
alada




Lucas dos Anjos

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Ode Oso

Oh, grão-mestres das linhas tortas
tecei com versos agora o que,
em tempos vindouros,
será nosso mantra
forjai com mãos agudas
o futuro das letras
que embalará a humanidade
com notas sem tempo

Arrancai da história adjetivos inomináveis
sobre o que antes era pó
é arte e não se explica

do sangue que tinge cada verso
da dor incompreendida dessa página
não se preocupe
ainda estamos aqui
e se não nos querem
é mais uma força que engolimos
é de gritos que a dor se constrói
a vanguarda mal quista
pelo simples fato da ignorância alheia

os esconjurados
os inacabados
inabaláveis
baila, potranca
baila
são poucos os que entendem seu rebolar

eu rodo
tu rodas
eles não rodam
mas ainda sim
nosso funk sujo suja as salas deles

Eu quero é o suor do vai e vem
porque sexo bem feito é arte
já dizia os baianos
"pau que nasce torto, nunca se endireita"
Nada de direita.
Só esquerda.
a beleza esquerda monotêtica de nossos versos

Agora, gladiadores com lápis,
a briga é de peixe pequeno
voscos moram em outros tempos
onde a cabrita berra e a potranca late

No futuro, mestres que bebiam daquela fonte
a fonte maldita: Vila da Penha
onde o baixinho tão grande nasceu
pernas tortas de dar pena

penha
penhasco
penca
Pensilvânia
pan-drive
penteadeira
perneta
percapita
pentelho
tantos pens
incompreensíveis pens.
que pena

A vocês, pais dos “v”
resta um alfabeto em possibilidades
resta o rosto de uma rena
Num reino Romeno em Roma
e range, arranha essa réstia de “v”
fuça
reles funça
fuça ate minh'alma falar chega
relando.fungando.
rele roto da roça

E de palco é a sua sina
de luzes menores que ofuscarão
leva o resto das menina
um fusca e um caminhão

Incomensuráveis seus feitos
És par por Deus eleito
Estrofes chofres sobre chifres
Acima só governador e prefeito

Oh máquinas engenhosas
Movidas a bolhas de sabão
Apreciadoras da tez sebosa
Adoradoras da água remosa
de Sete Lagoas e região

você viu?
o que?
o ganso.
o que?
o ganso.
que ganso?
o ganso!
o ganso?
é, o ganso.
ah, o ganso!

Fonte alva de inspiração
É teu nosso enlevo
É pro Romário e caldo xanão
Que dedicamos esse enredo


De Rô e Mário


3º Lugar
Prêmio Barbie de BRONZE na Bienal dos Piores Poemas 5

"Ode Oso"
Autor: De Rô e Mário
http://www.oficcinamultimedia.com.br/vencedoresbpp5.htm

quarta-feira, dezembro 06, 2006

sub verter

escrevo
sub versos
que inundam as linhas tortas
de nossos anos
para ver até que ponto sei verter
de nossos passos
um encontro

*nian.pissolati

quarta-feira, novembro 22, 2006

VOLHO VIOLADO

Quem avista o volho
voa sem volta
e vai avante
Violeta
vem volante
Vaga-lume.
em verdes vales
vários viscos
vagos vapores

quem avista
voa
onde há vista
vamos
à vertente prata
da vitória inacabada

vamos além.

Volta,vilão da várzea
E vermelha vulva do vaivém
Visto vacas no vaticano
Com velho violão da vitória

Valha-me!
Vão das vozes vencidas
o ventríloquo vendido
vestindo um víntage vitoriano
aveludado ou de viscose Vicunha volta a dizer:
“Vá com a valise para Vladvostok,
Na volta da viagem, compre um vinho em Viena,
visto que o vermute está velho”.

Vaiando vadias vorazes
variado verso velado
vermes agora vomitam-no

Vodka vencida.
Vejo um vulto voraz: vovó de vestido vermelho
na varanda de veraneio em Valença
vendida pelo vaiado volante do Vasco:
Valdir da Verruga

Vermífugo em vasos sanguíneos
vai vacilando em vezes várias
até avacalhar com a vida

Na virada, perto da van, vende-se vatapá
Ali onde visita veagan é viado
Dá vontade de violar a vulva de Vanessa vinte vezes
Como vento nas ventosas das vestais

Em vagem
Em vão

Vendo volks seis válvulas sem volante

e vice-versa.
Vixe!





Vucas vos Vanjos e Vian Vissolati

domingo, novembro 19, 2006

Um pra lá e um pra cá

Era de quadris meu flagelo,
Tantos ésses e mil cedilhas.
Era outra Era
De outras massas e sapatilhas

Meu pulso saltitava em desafio
Num balé descompassado
Na faca, o andar no fio,
Promessas soltas num salão riscado

No desenrolar dos medos
Um presságio, uma insana euforia!
Um mais-que-perfeito solo
Trágica coreografia

Era valsada nossa côrte
Um Pas de Deux sem lugar
Balé de desencontros
Um pra lá e um pra cá

Era de Dó a sinfonia
Que de lá regia inquietos e fugidios
Era desafinado esse silêncio
Movimentos (a dois) em agonia.

Era a véspera do encontro
Sentido há versos em agouro
Doçuras e leveza vencidas
Por um tanger de cortar couro

Era de resignação o tal final
Era sem futuro nosso par
Era, de fato, mais outra era
Uma vez em casa, descalçar.



E agora tudo dançamos:



Nada machuca tanto quanto não tirar os sapatos ...
Nada como um dia e um passo depois do outro.


Lucas dos Anjos

terça-feira, outubro 24, 2006

vinte e dois do dez

- ...
- ...
- oi.
- ...
- sem palavras?
- você é inacreditável. não é possível que você foi capaz de fazer isso.
- sabe qual o problema? desde o começo sempre foi tudo verdade..
- ,,, é, infelizmente você tem razão, é realmente tudo mentira.
- mas são muitas verdades. e eu me perdi nessas mentiras.
- não me venha com desculpas tão rasas.
- mas essa é mais uma dessas mentiras. minhas verdades...
- quais?! você não conhece nenhuma.
- e é exatamente por isso que eu não estava aqui.
- mas você não tinha esse direito.
- eu sei.
- foram algumas tantas ligações. eu só precisava de um oi.
- mas e se ele fosse falso?
- a verdade de sua falsidade me bastaria.
- mas seria muito pouco.
- não me venha com essas pequenezas dos vinte anos. eu não tenho tempo para tanta futilidade.
- futilidade? então eu não entendo mais nada.
- lá vem você mais uma vez. olha, pra começo de conversa, seus vinte anos não são eternos. e não adianta você se fazer de desentendido.
- ...
- era só um oi.
- oi...
- e suas preocupações? elas existem?
- incontáveis...
- mesmo as que importam?
- claro!
- e ainda assim você não foi capaz de dizer um oi.
- o problema é que desde o princípio, foi tudo mentira.
- será? Nestes poucos dias, o que você me provou foi uma série de sustentações em verdades inventadas, que no fundo, você não tem nem idéia do que sejam.
- já, disse, desde o começo foi tudo verdade. tenho certeza.
- não acredito em suas mentiras.
- e há algo que eu possa fazer?
- essa eu me recuso a responder.
- vinte anos?
- vinte anos.
- não era para ser tão triste. foram poucos dias. eu ainda poderia...
- erros grandes não têm tempo.
- me desculpa...
- ...
- ...
- talvez alguns anos de mentiras te façam bem...
- meu medo é que essas mentiras me façam mal. não quero acreditar em tantas verdades...
- seu erro é temer o mal...
- e se depois desses anos eu descobrir que realmente é tudo mentira?
- não se preocupe. é tudo verdade.
- verdade?
- mentira.

*nian.pissolati

segunda-feira, outubro 09, 2006

2 em 1

Cada feito, um sonho a menos.
Cada descoberta, uma frustração.
Sonhar mais que fazer
são duas coisas que perdemos

Cada escolha, uma devemos.
Cada trecho, uma só volta.
Andar mais que escolher
são duas coisas que nos falta

Cada sim, um não compensa.
Cada aceite, uma negação.
Recuar mais que oferecer
são duas coisas sem solução



e quando o sonho escolhe o não...




Lucas dos Anjos

quarta-feira, agosto 16, 2006

Cicatriz.

Com o corte primeiro da dor
Das lâminas despudoradas da vida
Com o talho sofrido sem cor
Despedaços em série mais que marcados

Tangidos gemidos no ar
Do corte na carne em calor
Da força cantada a vapor
Em mortes morridas de amor

*nian.pissolati

domingo, julho 02, 2006

Tríade

Dou-te de sobressalto e sem hesitar
três exemplos perdidos de coisas inteiras:

A partida

A estrada

A despedida

Dou-te de incauto a titubear
três exemplos achados de coisas partidas:

A volta

O caminho

E um bocado de coisas esquecidas





Lucas dos Anjos

domingo, junho 04, 2006

todo tolo

Um livro curto, aberto pelas mãos sujas
e que em suas páginas
se maculam ainda mais a cada salivada em salpico à ponta dos dedos.

Chaga exposta ao tempo
tocada aos berros por uma voz que não a minha.
Por um coro que disserta acerca do que desconheço.

Lixo destapado com asco.
E cada traste dele retirado ganha um adjetivo dos vis
dado pela palavra de quem prezo.

Porta aberta que exala um torpor de náusea
por um pedaço mal acabado de corpo inerte
que nada faz além de não fazer.

Um caco em grades, um réu cativo
por intenções em desacertos, convicções vertiginosamente imutáveis
pela troça das horas.

Um saco locupleto por um engano e uma desistência
e ainda vazio.
Até de tolices.


Lucas dos Anjos

terça-feira, maio 30, 2006

do que não deveria acontecer

ali,
entre petalas engolidas, quando, na verdade, deveriam estar voando-se.
entre perfumes inacabados, guardados à meia luz, que perdiam o poder libertar-se e encontrar-se no escancarar da vida.

e o que restou:

'amanha, às quatro, te encontro às cinco'.

*nian.pissolati.

quarta-feira, maio 17, 2006

monólogo

enquanto manchava o cigarro com seu batom vermelho e soltava a fumaça penosamente olhou para seus olhos e mostrando pelos seus todo o abismo em que começava a cair, falou numa voz firme:

‘o limiar entre a distância inalcançável e o encontro é o toque’.

e na realidade ele se limitou a apenas ouvir som firme de sua voz e todo a sua beleza. quanto ao que ela dissera não fazia a mínima idéia. e nem queria fazer. depois que o silencio se tornou confortável, ela não suportou e num gesto que desnudava seu abismo (ela fechou os olhos por alguns segundos) disse, ainda com voz firme.

‘agora era preciso sentir o gosto amargo de um café’.

nesse momento sua paciência começou a se esgotar e sentindo todo a queda que ela começava a lhe proporcionar, ou antes, a vertigem que a queda poderia lhe causar, disse com a voz seca:

‘da sua vida você quer um romance de virginia wolf ou um filme muito triste. até para sofrer você é clichê.

‘me diga, quanto você pagaria por um sorriso sincero?’

dessa vez ele nem se prestou a levantar a cabeça.

nesse momento ela abriu os olhos e viu que seu abismo era dolorido demais para que ele entendesse ou quisesse entender. e que talvez nem ela entendesse. ou que a dor era grande demais para que pudesse ser compartilhada com alguém. ainda mais por ele.

‘o seu problema é que você não tem coragem para viver um clichê’.

sua voz ainda era firme.

*nian.pissolati.

sábado, abril 22, 2006

Encontro

Naquele dia ela não acordou. E talvez por isso preferiu não olhar para o relógio, que naquele instante só poderia marcar onze da noite. E o único movimento que pôde fazer, foi, aproveitando-se do lusco-fusco do quarto, ver no espelho traços que naquele momento lembravam-lhe libélulas violetas que numa longínqua tarde de outono pensara ter visto nos olhos de uma senhora triste, num café triste. E como não poderia deixar de ser, ela só pode fazer o que lhe cabia neste dias reais. Pintou os lábios que até então eram virgens daquele rubro devasso que a noite devassa lhe exigia. E pensou o quão pura era sua devassidão. E aproveitou-se que o único intruso àquela hora era um fio pardo de luz amarela que vinha do poste da rua e penteou os cabelos como nunca ousara. E entre as sombras negras que lhe confundiam o reflexo, tirou um retrato com os próprios olhos daquela moldura que acabara de fazer. E continuando o ritual-sonâmbulo-do-real despiu-se, mas dessa vez acendeu o abajour vermelho que mantinha no criado mudo e foi realmente bonito decorar seu próprio corpo rubro, e suas perfeitas imperfeições. Quis ligar a vitrola e ouvir uma valsa, mas logo percebeu que assim fugiria das regras, e ela mesma se pôs a cantarolar sua valsa predileta, que, obviamente, ela inventava durante seu baile. E foi a primeira vez que percebeu que a leveza não era assim algo tão sofrível, como insistiam em lhe provar. E depois de ter um breve contato com o não-peso, sentiu que era hora de sentir as arranhaduras do chão, para que não se contentasse tanto com o ar. E sentou-se novamente diante do espelho, que insistia em lhe apresentar libélulas violetas. Sentiu-se então apta a continuar seu sonho e pensar nos três amores de sua vida. Viu o primeiro e após uma lágrima curta, sem muito sabor, e até mesmo inadequada, que as sombras do reflexo convenientemente ocultaram, resolveu guardá-lo junto às suas tantas promessas na terceira gaveta de sua cômoda, pois pensou que dali há alguns anos, só poderia achar graça das lágrimas gastas com frases feitas por alguém que não teria nem a coragem de sonhar com o mundo prometido. Observou que o reflexo lhe mostrava um sorriso imperceptível, o que lhe encorajou a partir para o segundo. E a única coisa que sentiu foram exatos três minutos de cócegas na barriga. Ficou feliz com aquilo, pois sempre amou sentir cócegas na barriga, mas percebeu, que depois das cócegas, o que vinha era um vazio, e de vazios, já lhe bastavam aqueles que enxergava alguns dias, quando acordava no meio da noite, e ao acender a luz para ver se ela ainda absurdamente existia, o espelho lhe devolvia um par de olhos vazios. Arrepiou-se por um instante, mas viu que naquele momento o que via eram dois olhos imensos, capazes de engoli-la. Decidiu então manter o segundo em algum canto, para que nesses momentos de frieza, quando não temia seus próprios pensamentos, se lembrasse dele e por três minutos se aquecesse com as cócegas na barriga. E afinal pensou no último, que numa tarde escura, talvez a tarde mais escura que ela já viveu, amarrou os sapatos sujos e lhe disse que não tinha mais coragem de contaminar o mundo colorido dela com suas aflições em preto e branco. Nesse momento ela evitou o espelho e tentou acordar, mas percebeu que seu sonho era real demais, e em sonhos reais não existe o despertar. E chegou a conclusão que do terceiro, o que poderia fazer era aprender a não se contaminar tanto pelo caos das cores para em alguns momentos assumir e amar o que lhe fosse preto e branco, por mais que aquele que lhe mostrara o preto e branco nunca mais voltasse. Olhando então novamente para o espelho, viu que as libélulas violetas começavam a se dispersar e que já estava despida dos três e sentiu que era hora de colocar seu vestido de baile. Estava pronta. Tinha um encontro consigo mesma.

*nian.pissolati.

segunda-feira, abril 17, 2006

O nome disso

Um vocábulo que foge do meu repertório. Na mala aberta e revirada, pedaços de sensações perdem os nomes e vestem outros para o meu esquecer.

O apelido do comum. A talidade do prosaico que me alfineta, como por uma brincadeira de mau-gosto, em busca de um sentido verdadeiramente relevante.

Como pode a aparência de algo que não me lembro mais e que significa algo tão costumeiro, quase dominical, se apossar de vários minutos dos meus recentes dias?

Eis o contraponto: o nome que escapa do seu dono, a coisa mais simples das coisas mais simples, que agora, escapa da bagagem empoeirada em busca de uma lembrança que, quando lembrada, se lembrada for, espera-se saciar a agonia sem nome que me faz ranger os dentes.

Tal léxico quer saltar alto da minha boca sugerindo um inacabado “ver...”. Tento invocar o que falta, mas parece-me andar por longe bastante desta mala aberta esquecida.

Curioso, eu diria. “Ver...” . A sugestão de um olhar perdido e inacabado. Um pedaço de palavra tão perto, assim como uma mão que alcança a mala entreaberta que se arrasta, deixando pelo caminho resto de coisas.

Um pedaço aqui, uma peça acolá. Algumas letras atrás, esquecidas num caminho, enredadas por um ambiente tão ver...

Como é mesmo o nome disso?


Lucas dos Anjos

domingo, abril 09, 2006

cinza

.e ele pensou que sua pequenez não cabia na grandeza daquele mundo.

sábado, abril 01, 2006

Inacabado

, e diante de todo o infinito que cabe em seus olhos seria demasiado arriscado eu tentar te explicar meu mundo. Perdido em pequenezas pessoais seria grande a viagem para te conduzir por caminhos tortos com o perigo do destino não ser lá o que se esperava.

E lhe apresentar tudo que está e é seria loucura, pois o universo que você possui talvez seja muito denso para que você creia no espontâneo-não-justificado. E o que eu consigo lhe projetar é apenas um mínimo indício de tudo o que eu queria ser, que eu poderia ser, mas...

Poderia falar-te tudo ao pé do ouvido, em meio às sombras daqueles que se encontram neste prolongado ínterim. Mas é tão clara a imagem falsa que estas palavras lhe produziriam que a minha auto-punição se torna justificável. Mesmo crendo que na realidade isso tudo seja apenas mais um dos tantos escudos de que agora começo a me munir, diante de olhos que vêem além, prevendo já uma seqüência de ações que podem ser cortadas pela raiz.

O triste é saber que você nunca irá ouvi-las, porque me expor à sua não-querência seria uma queda muita alta. Não que esta queda seja ligada diretamente a você, mas antes a tudo aquilo que acredito, mesmo sendo minhas crenças não tão confiáveis.

Sabe o que é?

É que eu, inadvertidamente,

*nian.pissolati.

quinta-feira, março 23, 2006

O pó responde

Nasci amarrado a esta pedra como muitos outros empilhados ao meu lado.
Repeti como um espelho as fissuras que me foram dadas
em lições diárias de tédio a favor do prosperar.

Todavia, como o pó era o meu caminho prometido
a ele retornei e os dogmas, apreendidos outrora, comigo,
como se fossem também amarrados a mim, se multiplicaram e se perderam
com a mesma força ao primeiro sopro do vento.

De certo que agora, em muitos pedaços observo aquelas palestras que ainda seguem sem mim.
Múltiplo, esvaído, desaprendo solto no ar as fórmulas do parar.

Triste é o fim porque não tenho mais lugar.
Em plural sou vapor,
sou poeira pronta a esperar.


Lucas dos Anjos

sábado, março 04, 2006

Pequenos passos

Por enquanto não vamos nos prender às flores
Ainda há muita umidade em nossos poros para que venham outros odores.
Além do mais, suas belezas são por demais complexas
Para que possamos nos arriscar a compreendê-las tão cedo.

Também não cantemos tantas poesias,
se ainda nem compreendemos um ponto final.
Há, lá fora, um mundo de pontos finais.
E seria muito triste nos precipitarmos a eles.

Vamos nos permitir antes a árida rua
Que por debaixo de nossos pés
Guarda uma infinitude multicolor
- que os tolos dizem incomunicável

Vamos primeiro esperar a derradeira chuva que não cai.
Vivamos a eminência.
Imersos na gravidade aguda da chuva que não cai.
A dor aflita da espera.

Vivamos a eminência
e a dor aflita da espera.

*nian.pissolati.

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

intransponível

Subindo por fios
Rasgando tudo que não seja devidamente volátil

Submerso em aspirações
Inspirando certezas
Vomitando estilhaços de verdades dadas

Contrariando o obvio
Pelo simples fato de ser humilde
E querer

Vangloriando o inesperado
Mesmo sabendo que dele
Não se pode esperar tanto assim

E o passar dos dias
Que só fazem calor
O calor monótono e incauto dos desajustados
Que ao menor sinal de leveza se desfazem em lágrimas

Não se pode crer tanto em gritos
Mas por enquanto
Eles são algo,
Mesmo sem transformação.

*nian.pissolati

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

Passos largos

Posto que cada passo passeia em busca de um não mais passear
E que cada alinhavada dada ao tempo procura o não mais procurar
É que me lanço ao não mais lançar.

Sublinhada tal essência menos essencial que as outras
Percebido o fim inato de tudo o que se percebe
É que admito o admitir

Que cada passo dado alinhava os pés de quem passeia.


Lucas dos Anjos

sexta-feira, janeiro 20, 2006

Entremeios

Minha aflição tateia o marasmo,
flerta com a calmaria.
Meu flagelo grita aos surdos
com as mãos amarradas nas costas.

Esse lugar do meio, da passagem
é também a morada dos atropelamentos
(em baixa velocidade)

Todo esse território, o meio, ambiguamente
me consome em banho maria

quente

calmo

insuportávelmente lento

Ah, esse calor que me congela
Ah, esse meio do caminho
Ah, esse médio que se agrava e se aguda

Paciência.


Lucas dos Anjos

terça-feira, dezembro 20, 2005

Uma história sobre o fim entre camas e covas

Por entre meio-tons de cinza e verde mastigávamos elogios uns dos outros por um mês ou mais. Por algum tempo me deitava e jogava um jogo com meus desejos e a realidade. Te queria ao ritmo do tempo. Quanto mais, mais. Você me queira do seu jeito. Quanto mais, nada.

Entre encontros e desencontros, entre telefonemas sem assunto, me jogava e cavava minha cova funda como quem fazia a própria cama para dormir sem hora marcada pra acordar. Eu sabia. Eu te amava. Eu te perdia.

Entre cansaço e saudade nos encontramos. Eu, como sempre, abanando o rabo, fiel como um mascote, tremia de felicidade ao te ver mais uma vez. Você, como sempre, nada. Um nada entre um elogio ou outro, entre um beijinho ou outro. Um morno que eu aprendi a amar. Nesse dia você me olhou triste, também como quem fazia a cama para me deitar sem saber que eu já a havia feito, e me disse um caminhão de palavras tristes que eu nem ouvia, segurando a sua mão, correndo seus braços com as minhas, te decorando pra levar comigo.

Entre uma palavra e outra arriscava te olhar nos olhos e percebia que não eram como antes. Tentava agora te escutar, como se precisasse, como se eu não soubesse o assunto. Percebi que também não era boa com as palavras e que se complicava ao tentar achar uma explicação deglutível para aquela situação. Te abraçava como quem não entendia. Eu não entendia de fato. E você não explicava de fato.

Entre palavras úmidas e cigarros, assumi que me oferecia o fim. Nesse momento te ofereci um novo começo em contraproposta já me inclinando para deitar naquela cama feita à duas mãos. Eu estava certo. Disse “que pena” com os olhos molhados. Te dei um ultimo abraço e percebi de relance o que estava estampado em sua camisa parda como eu:

“Por que você não me ama?”

Me levantei a procura daquela cama/cova prometida que era minha desde o início. Eu sabia.


Lucas dos Anjos

segunda-feira, dezembro 19, 2005

Sobre vapores e amêndoas

Distribuo por sobre a cama alguns pequenos pedaços de tudo aquilo que fomos nós, alguns recortes antigos e carcomidos de nossas caras, de nossos gestos, num amontoado de papel amarelado, que aos poucos perde seus sinais de vida e deixa que a nostalgia os invada por completo, com seu cheiro de mofo, de passado, aquele cheiro dos ausentes que não se tocam mais e que todo dia, em uma dada hora, a mesma, sempre, lembram de algum episódio em que riam de amenidades. Distribuo minuciosamente bem todos os episódios, todos os momentos e realço em determinada hora os dias em que estivemos mais felizes, quando seu caminhar por sobre o tapete da sala era sublime, e seu rebolar tão natural que nascia no ventre e morria nas coxas me fazia pensar que o mundo não é lá tão importante diante de algumas horas ao seu lado, sob os lençóis verdes que você fazia questão de nos embrulhar. E foi inevitável pensar no doce cheiro de amêndoas, que tomava nossa casa, ali pelas três da tarde, dos sábados calorentos, quando você saía do banho e religiosamente se secava ainda no box, cantarolando numa voz-doce-muda uma canção antiga e ainda você brincaria com o vapor que insistia embaçar os vidros, fazendo desenhos inimagináveis, e eu, enquanto isso, deitado na (nossa) cama fumava um cigarro e me enganava fingindo ler algum livro, quando na realidade só traduzia em pensamento aquilo que se passava no chuveiro, e você ainda nua, depois de secar seu corpo, passava o creme por seu corpo, com o doce cheiro de amêndoas, que se misturava ao vapor, e aos poucos tomava nossa casa, nosso pequeno castelo construído de palavras bonitas e gestos que por si só nos explicavam, e eu podia ver, na parede sua silhueta, que dançava com o movimento do vapor e luz, e acreditava, realmente acreditava, que éramos eternos. Recorto nossos recortes na esperança de entender-nos um pouco mais, mas em um segundo percebo que tudo o que fomos nunca vai ter explicação e que na verdade estou é desistindo de todas as lembranças, de todas as promessas, de nós dois, porque na verdade viver sabendo de tudo aquilo fomos é doloroso demais, e o que foi, deve ficar onde está, e não preciso trazer-te à tona, ainda mais agora, quando meus pensamentos se mostram tão densos, de uma densidade que na verdade não é minha; mas minha leveza, com os anos, esvaiu-se, e seria inútil tentar recuperá-la, agora, a princípio por dois motivos, o primeiro, porque é claro, nunca eu conseguiria ter novamente a leveza dos vinte e poucos anos, e a segunda, porque na realidade, não sou mais tão ameno, nem pretendo ser, porque alguns anos de angústia serviram para que meu olhos conquistassem uma dureza impossível de se retirar e qualquer movimento que tente o contrário só resultará em mais dureza, e acredite, dessas questões, pelo menos por hora, prefiro me eximir. Deixo nas sobras de meus recortes, por sobre o verde desbotado dos lençóis outrora tão vivo algumas horas que estão incrustadas de tal maneira em meu corpo que retirá-las significa sangrar, sangrar sem fim, até que o sangue fique ralo, tudo fique ralo e eu já não tenha tanta força para lembranças e devaneios. Luto contra, mas é inevitável lembrar de quando o vermelho era diferente para nós, e só nós sabíamos todos os segredos e beleza que um vermelho pode guardar, tantas músicas, sussurros e transpirações que o (nosso) vermelho pode ter, mas que claro, hoje em dia, eu não sei mais como vê-lo assim, e ele é para mim como uma lembrança de infância, como um cofre onde eu guardava meus soldadinhos de chumbo, mas que hoje em dia esqueci seu segredo, e então só posso o ver por fora, e lembrar as tantas coisas bonitas que ele guarda, mas que são inatingíveis. Recuo um pouco os recortes e penso em queimá-los, enxotá-los daqui pra nunca mais, mas também é uma tarefa difícil, essa de assumir o papel de exorcista de nossa vida, mas não quero também apelar para um sentimentalismo barato, e citar por horas nossas cartas trocadas, nossas lagrimas traídas, seu gosto em minha pele, e sua respiração em minha nuca, seu oxigênio em minha boca. Não. Prefiro agora me tornar tudo o que mais detesto e reconstruir minuciosamente todos os minutos daquele dia chuvoso de novembro, quando você não tinha mais as pequenas bolas pretas de seu olhos, mas sim um cinza indecifrável que simplesmente me despedaçou e ao pronunciar um ‘vou-me embora’ tão seco que serviu para acabar com tudo aquilo que éramos, e tenho que lembrar disso e tenho que perceber que sua frase, naquele momento, na verdade foi muito maior do que tudo aquilo que eu esperava, e foi um golpe seco, surdo, suficiente para quebrar nosso pequeno castelo de vidro, que ficou então estilhaçado, e entre os cacos, ali fiquei, e na verdade, só agora, depois de alguns tantos anos, tive a coragem de abandonar.

nian.pissolati

quarta-feira, dezembro 14, 2005

verde

Me empresta tudo que pese menos que o vento
dá me um sonho que reluza novos dias


é de cores
que eu existo

amarelo
vermelho
azul
.
.
.
.
verde

o pardo e o opaco se encaixam em outras abstrações.
o par do opaco se encaixa em outros abismos e atrações.

verde
e
o
que
mais
puderes
trazer
me


nian.pissolati

Meu. Seu.

Sua boca é a minha quando tira com fórceps o verbo que cisma em calar.
Suas conexões se fazem as minhas em noites de palavras engessadas
Seus olhos são os meus quando não quero a realidade que me tange.
Seu colo o meu lugar de trégua, de culpa sem dor.
Seus cigarros ao telefone me bastam.
Minha dor. Sua lavoura.
Meus conflitos...
Seus.



Lucas dos Anjos

o retorno

Volta... , mas mais ou menos

Fase constante

Vazão de sonhos sem fim
Um eu que não cabe em si
Dos andares pardos de um prédio concreto
Vejo a noite em silêncio

Debates impensáveis de alma
Querer aflito e inseguro
Mas depois de um tempo alguém gritou:
'são só chicletes mastigados'

*nian.pissolati

Todas

Todas as lágrimas que se jogam dos seu olhos, por essa ou aquela razão, percorrem seu rosto e se perdem no seu corpo assinando meu nome.
Todos os seu sonhos, bons ou ruins, começam ou terminam com a minha figura desdenhosa.
Toda dor que sente dói aguda pelo ritmo que te empenho e pela lembrança que te trago.
Toda falta que sente é saudade.
Todo amor que pode dar me pertence.
Todas ilusões são minhas por direito.

Lucas dos Anjos

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Muitas coisas na cabeça. Conversas que terminaram mas ainda não acabaram. Olhares trocados em poucos segundos mas que dizem demais. Um soco no ventre dado a quatro mãos. À espera de milagres. Mesmo sabendo que milagres não acontecem.

O mundo que se complica a cada minuto. Todas as pessoas, todas, sem exceção, que são injustas. Não são más, mas são injustas. E causam lágrimas, sussurros, gritos, suor e angústia. Saber que não se sabe tanto nem sobre si mesmo.

Piscar o olho um pouco mais lentamente, pra ver se alguém lhe conta um segredo indizível. Cansar de esperar por mudanças. Mexer com tudo em volta. Deixar de pensar demais.

*nian.pissolati

três

Faltaram uns segundos de respeito
Que não existiram
E que nem vão existir

dor

Olho triste para outros olhos que se buscam
E não são os meus
Apesar de conhecê-los tanto

dor

Enquanto isso fico no vai-não-vai que me mata

*nian.pissolati

Três cigarros

Quando as coisas se complicaram mesmo já era tarde demais. Ele já não tinha mais certeza de muitas coisas e preferia se ausentar de seus relacionamentos e pseudo-relacionamentos. Tomou um café, sozinho, em frente àquela praça que outrora passara momentos felizes. Mas desta vez estava sozinho, só ele, a xícara de café, e seus três últimos cigarros do maço. Um casal ria à sua frente, conversando sobre o último verão. Uma leve dor de cabeça começava a anunciar que aquele final de dia na verdade era apenas o começo de uma longa noite abafada e sem sono. No máximo alguns minutos de sonhos ruins, que se confundiriam com seus maus pensamentos e que resultariam apenas naquele torpor opaco dos angustiados.

Tomou um gole do café e acendeu o primeiro de seus últimos três cigarros.

O calor era grande e confundia ainda mais suas idéias. Há muito vinha tentando tomar uma decisão. Mas os medos eram maiores que as certezas e achou melhor nada decidir. Alguns meses de ansiedade e expectativa por algo, que na verdade só dependia dele. Apagou o cigarro e pediu outro café. O casal na sua frente já tinha ido embora. Agora o que via era um senhor de idade, lendo o jornal. Impressionou-se com suas rugas. As linhas que cortavam seu rosto e suas mãos eram impressionantes. E começou a sentir o odor da velhice. E de certa forma sentiu aquele cheiro se impregnar em seu corpo, e de repente, seus vinte e poucos anos se multiplicaram três vezes. E agora sentia todo o peso da idade em suas costas. Estava cansado. Era como se seus últimos quatro anos tivessem valido por quarenta.

Acendeu o segundo cigarro.

Deu um gole no café que o fez sentir menos as coisas. Na verdade, chegava a uma conclusão, vendo aquele senhor, impassível, lendo seu jornal. Seu problema era que sentia as coisas demais. Tudo era muito. Queria poder estar calmo. Nem sofrer demais, nem morrer de alegria por alguns minutos. Apenas viver tranqüilo, com dias melhores, dias piores, mas sem grandes exaltações. Deu mais um trago que o fez acreditar ainda mais em suas idéias. E ao apagá-lo havia decidido três coisas: seria menos sentimental. Iria parar de fumar. E ligaria para sua melhor amiga falando que na verdade tudo de ruim que já havia acontecido era tolice. E que tudo deveria ser esquecido, porque eles eram muito maiores do que aquelas bobagens que ele havia feito. Viu que estava na hora de pensar em algumas pessoas que estavam com ele e às vezes, lhe passavam despercebidos.

Estava na hora do último cigarro.

Seu segundo café já tinha acabado. Tentou não pensar em absolutamente nada enquanto durassem seus últimos tragos. Brincou com a fumaça, tentou não associar aquele momento a nada, apenas a ele. Aquele era o seu momento. O momento de desfrutar tudo de si mesmo, e ver o quanto ele poderia ser bom e ruim. Pensou na maior bondade que já tinha feito. Na maior maldade também. E isso não o afetou tanto quanto ele pensava que afetaria. Talvez isso já fosse um sinal de que começava a domar seus sentimentos. Apagou seu cigarro. Pagou a conta. Chegaria em casa e ligaria para a sua amiga.

***
Ele nunca deixou de sentir tanto. Dois meses depois voltou a fumar. E ele descobriu que sem sua amiga, ele não seria ninguém.

*npl

Tempo de chuva

Todas as ruas estavam encobertas por folhas tenras. Não haviam caído por velhas e sim porque choveu e ventou mais que devia.
A minha impressão nessa manhã era de que nada ou ninguém conseguiu se isentar do que a chuva trouxe consigo. Nesse dia ele compartilhava com tudo o gris do dia. Ele havia chovido. Ele era cinza por dentro
Dias cinzas o encantam.Fazem-no olhar oblascente para a cidade e seu ritmo. Ele caía no vazio de uma contemplação opaca, curta, uma hipnose estética. Pensou em sair de casa. Um café, um jornal...
No caminho olhava pro chão e se indagava quais eram mais numerosas. As folhas caídas ou as pessoas que se irritavam com a morbidez do dia? Pergunta sem propósito - pensava. Olhava para os carros, um ou outro tinha pressa. Quem teria pressa aquele dia? Nem mesmo os garis que varriam as ruas. De mais a mais, deviam engrossar o coro dos que agradeciam as grossas nuvens. Disparate! Talvez os únicos que assumiam a leveza daquele dia eram de duas categorias de pessoas. Os garis e os que, como ele, se dedicam ao ócio e à inércia. O peso mais brutal que conhecera presume-se ser o de um caderno grosso ou um livro bem costurado. Escória.
Andava a um centímetro do chão descendo a rua Castro rumo ao café Castelo, que de castelo não tinha nada se não fosse pelo seu Jairo dono rei da espelunca suja que ostentava seus cem quilos molhados de suor. Tinha uma voz oleosa e mão de dar nojo.
Ao chegar pediu uma média, um cinzeiro e fósforos. Sacou o jornal do dia da pasta e, sem muita vontade, correu os olhos sobre as letras maiores. Na verdade aquilo não o excitava. Não passava de um ritual de sacrifício do tempo. Cada letra a mais, menos segundos do dia. Seus olhos obedeciam a cadência da leitura, linha por linha, mas o entendimento negava-lhe presença. Seus ouvidos reparavam conversas misturadas, atravessadas por tosse, por gemidos, gotas da torneira que caiam e uma música irritante que Jairo rei mostrava orgulhoso ao freguês mais animado.
De quando em quando erguia a cabeça e analisava o perímetro. Alguma mudança. Pessoas saiam, mudavam de lugar, outras entravam. Todas desinteressantes. As mesmas desconversas. Agora importava outro café no lugar daquele frio.
Ele olhava através da meia porta aberta que ainda restava descer. Olhava a rua e policiava seu ritmo. No fim o mesmo dia cinza. As pessoas pareciam as mesmas só que com roupas diferentes. Os garis, eles não. Empenhavam um dinâmica diferente. Vaivens, assovios, cantorias. Matavam o tempo. Eram cúmplices na empreitada do dia.
Ao fim da tarde ele já havia permutado as letras do jornal. Rasgava as pontas e brincava de acertar o cinzeiro, a xícara. Uma ou outra caia ao chão, mas quem se importava? Bons modos naquele dia, naquele lugar? Ora. Nenhuma palavra ele disse a alguém. Nenhuma palavra alguém disse a ele. Não que ele tenha escutado. Não que merecesse atenção. Até que o último arranjo aconteceu naquele café amargo. A cadeira ao lado dele arrastou pelo chão assoviando. Pediu um café e um pão com uma voz segura. Firme. Clara. Jairo oleoso o serviu sugerindo pressa. Ele olhou para o lado e percebeu que aquele lugar, a cena do crime, era refúgio dos dois cúmplices. Ele e o gari.
O trabalhador o cumprimentou satisfeito. Um sonoro "boa tarde". Ele devolveu um alçada de sobrancelhas e um desvio de olhar para a porta. Ainda ventava mas o jornal acabara. O trabalho do dia também acabara para o braçal. Não havia outra opção senão prestar atenção na conversa do Seu Jairo com o sujeito. Conversa aquela que cheirava a óleo e a suor. Resmungos fétidos.
Não se aproveitava nada daquele papo e ele olhava o gari como quem dissesse: " sei o que você fez hoje com o tempo!". Mas nada dizia. Somente olhava e desviava o olhar. Esse era o novo jogo.
Ele voltou para seu último café. Tentara desviar a atenção para o que realmente importava. O dia. O tempo. Escurecia. Aquele fora o café mais rápido do dia. Lançou a mão no bolso olhou o relógio e colocou moedas em cima no balcão. Alçou novamente as sobrancelhas a saiu de assalto. Apertava o passo como lhe apertava o peito uma sensação muito estranha. Uma raiva ansiosa. Loucura de chegar em casa e voltar pra onde não deveria ter saído naquele dia. Cama e cigarro.
Na sua casa também ventava. Havia um sinfonia de rangidos. Janelas e portas, dele e dos vizinhos brigavam com o vento. Aquele som tirou seu sono. Ou seriam os cafés? Não se importou com aquilo. Ficaria feliz mesmo sem dormir, só queira casa e cigarros.
De fato o sono não lhe visitou. O vento não parou e anunciou a chuva pela manhã o que lhe deixou satisfeito. Outro dia daquele! Às seis da manha colocou os pés na rua. Era a mesma rua com as mesmas folhas. Eram os mesmos carros na mesma velocidade. Eram as mesmas pessoas que eram as mesmas ontem.
A menos de uma passo de casa resolveu voltar. Entrou em casa retirou os sapatos e sentou à cama.
Aquele era o mesmo dia. Aquele era o mesmo tempo morto. Esperaria outro motivo pra sair de casa.


Lucas dos Anjos

Relacionamento

As tantas portas tortas estão abertas
Entre
Faça bagunça
Tire os móveis do lugar
Escreva seu nome nas paredes
Mexa em tudo

Regue minhas flores
Torne-as mais perfumadas
Mude a cor dos meus armários mais antigos
Troque as roupas de gaveta

Só não faça morada
Nem visite os cantos mais frios
E os quartos mais escuros

Tome a chave
Fique o quanto quiser
E deixe marcas

Será pior na partida
Eu sei
Mas só assim pra valer a pena

*npl

sobre balas e pirulitos

aos poucos as poucas partes da sua vida de porcelana iam se colorindo.
o rosa do fim de tarde lhe era sonoro outra vez.
seus cabelos ruivos, balançados com o vento, lhe davam um ar de desproteção. e isso era lindo.
e o mudo voltava a ser uma caixinha de bonecas, onde a maior preocupação era escolher entre balinhas de caramelo ou pirulitos amarelos.

sua voz era doce, mas ao mesmo tempo firme.
o mundo realmente parecia ser pequeno demais. e isso era bom.

sentia um constante gosto doce na boca, que lhe dava vontade de cantar.
sua vida era um sonho.
interminável.

e essa era a melhor realidade que ela poderia ter.

*npl

A Janela

Não poderia precisar a quanto tempo ele estava lá. A maçaneta e as dobradiças da sua porta já não se lembravam do seu ofício tal qual seus ossos e juntas há muito em desuso.

Nesse dia ele acordara diferente dos outros dias. Nesse dia olhava em detalhe para o resto do seu corpo inerte. Além da vergonha que já sentia, a costumeira, daquela massa magra e gorda ao mesmo tempo, ele sentia dores diferentes das que o acometiam no meio de quase todas as noites. Ou seriam dias?

No seu campo de visão se acomodavam à sua mesa empoeirada, cheia de recortes, uma xícara suja, um cinzeiro sem visitas e um porta-retratos velho e vazio. Ao lado da cama uma garrafa de água morna e suja e embalagens de balas e remédios baratos. Alguma revista.

A última viagem da qual se lembrava era do translado da cama ao banheiro. Fatigante. A última visita que recebera foi a de um senhor que batera à sua porta procurando alguém que, para ele, não existia. Voltava pra cama animado em não render assunto.

O vento que entrava pela janela entreaberta cismava em jogar aqueles papéis da mesa ao chão. Ele observava como se pedisse ao vento pra ventar em outro lugar. Franzia a testa e resmungava.

Inflou os pulmões e decidiu levantar-se de assalto. Três tentativas até erguer-se e se arrepender em dor. Sentou à beira da cama e contemplou os papeis ao chão, derrubou a garrafa de água com seu pé destreinado. Franzia o corpo todo.

Enfim, levantou-se. Pegou a garrafa e mirou à cozinha em um passo lento. Olhava sem querer para os dedos do pé ao caminhar. Entre um tropeço e outro, alcançou a pedra da pia onde sentou a garrafa. Esticou o pescoço. Rodou a cabeça. Com as mãos sem jogo, tocou a cortina que se debruçava em sua única janela. Abriu lentamente a janela que lhe revelou um sol de janeiro. Foi quase um flash que o cegava.

Depois de um minuto de acomodação frente ao incômodo as coisas começavam a se definir. Passava por ele um velho e seu jornal hipócrita. Uma criança ruiva caia de bicicleta. Um ou outro pássaro pousava no jardim do outro lado da rua. Uma moça se fazia ver extravagante em seu vestido roxo, que coisa!

Procurou o ar. Olhou pro céu azul tinto em rosa aqui e ali. Exitou em fechar a janela, entretanto o fez. Sentiu-se bem. Passou a mão na garrafa de água. Encheu. Voltava pelo mesmo caminho quando olhou pros papeis ao chão e resolveu parar. Envergou-se e apanhou todos e isso lhe custou um urro de dor. Arrumou-os novamente sobre a mesa. Entre eles um retrato perdido. Fitou-o por alguns minutos. Imóvel. Franzia o corpo novamente. Resmungava diferente. Colocou-o com esmero no porta-retratos. Caminhou até a porta velha, descascada. Girou a maçaneta bruscamente e com pouca força abriu um pequeno ângulo. Como rangia! Como se poupasse por pena a porta, resolveu desfazer o que havia feito. Fechou novamente.

Voltou pra cama mostrando em seu rosto um sorriso beóceo. Um mal-estar leve da dor que ainda restava.



Lucas dos Anjos

Repetição

Se minhas ilusões já não me convencem tanto
É que algo de grave se perdeu
Ou quebrou
Ou descolou

Eu sei o que é

Mas do real já me bastam as frustrações sólidas.
As não palpáveis deixo pra trás.
Apesar de acabar remoendo-as ainda sobra uma gota de esperança

Dissolvo-a em meu pensamentos
Pra ver se seu mel me entorpece

Suspiro mais uma vez

Nian Pissolati

Universo Paralelo

Te falo palavras ao pé do ouvido e torço para que saiam boas. Luto e reluto mas me entrego ao teu sorriso. À tua voz e à tua boca. Penso nos sonhos bons que ainda vou ter, nos quais você será a protagonista. Tento construir um enredo de nossa história em minha cabeça, mas é desnecessário. Deixo-me envolver em teu presente e o aroma do hoje me agrada

O mundo é mais brando.
E tudo é pretexto para estar com você.
Tiro um pouco o peso dos ombros, apago a luz e te deixo me conduzir.

Sim, isso tudo é o que você está pensando.

*npl